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Ajamu Baraka *

…de acordo com James Risen, se Trump decidir “atirar um denunciante para a cadeia por tentar falar com um repórter, ou mandar o F.B.I. espiar um jornalista, tem de agradecer a um homem por lhe ter legado um tão amplo poder: Barack Obama

 

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Com a ultrajante decisão da Casa Branca, de Trump, de proibir um ativista da CNN de se apresentar como repórter, mais pessoas estão agora a começar a fazer a ligação entre liberdade de imprensa e a questão do “direito a saber” e da informação livre. Mas temos de perguntar mais uma vez onde estava essa preocupação quando os democratas, sob a administração Obama, usavam o ato de espionagem para prender os que denunciavam e processar jornalistas? Por que não há indignação na proximidade de o governo equatoriano entregar Julian Assange para ser processado pela inteligência ocidental, pelo crime de ter publicado relatos das suas nefandas ações? Onde estavam estes defensores objetivos do direito à informação quando o Estado esteve a colaborar com corporações privadas, como a Google, o Twitter e o Facebook para alterar e limitar o discurso político e a informação?

Para alguns – que, dentro do contexto da atual e intensa luta ideológica, tentam afastar o foco e a análise de um quadro oportunista e simplista, que se centra sobre personalidades e psicologias individualizadas, para interesses materiais e estruturas e interesses de classe – pode abrir-se caminho para acusações de não serem suficientemente contra Trump, ou de serem, estranhamente, “pró-Trump”. Mas foram Obama e ambos os partidos capitalistas, e não Trump, que introduziram o “Ato Contra a Propaganda e Desinformação Estrangeiras” na Lei de Autorização da Defesa Nacional, em 2017, nos últimos dias da sua administração. Um ato que estabelece um centro de propaganda no Departamento de Estado, que, objetivamente, tem estado a coordenar operações psicológicas (psyops) nos EUA, em conjugação com corporações privadas e serviços de inteligência. 

A oposição silenciosa ou o apoio total a esses esforços dos democratas liberais não é exatamente um caso de hipocrisia. É uma obstinada posição ideológica que afirma que certos discursos e informações são aceitáveis ​​e outros não. Numa época em que a concentração capitalista resultou em seis corporações, que agora controlam mais de 90% do dominante conteúdo noticioso, a restrita faixa de conteúdos de reportagem e “dignos de notícia” não deveria ser uma surpresa para alguém ainda capaz de pensar criticamente. Esses democratas liberais são cúmplices em sustentar a mentira de que a imprensa capitalista representa uma visão do mundo objetiva e não partidária.

A orientação editorial e o preconceito das agências de notícias da Televisão Russa (RT) e do New York Times para com a BBC e a Fox News são bastante óbvias, e ninguém deveria ser autorizado a reivindicar uma posição universal sobre a “verdade”. Todavia, devemos exigir o livre fluxo da informação, especialmente informação de setores não corporativos e não estatais. Defender este direito humano e democrático não é uma capitulação às sensibilidades burguesas. Reconhece-se que defender este direito “democrático” é uma necessidade objetiva das forças radicais no atual contexto, em que os setores estatal e corporativo estão a colaborar para restringir os discursos e a informação.

O aberto autoritarismo da administração Trump e das forças que representa é uma oportunidade para os progressistas mudarem o discurso político. A ofuscação da unilateral guerra de classes contra a classe operária, os pobres e as pessoas de cor nos EUA, durante as últimas quatro décadas, desarmou e confundiu a oposição radical. Mas o impacto da crise de 2007-8 expôs à frente de todos as contradições sistémicas e irreconciliáveis ​​do projeto capitalista neoliberal, mesmo que a maioria não tivesse as ferramentas teóricas para entender corretamente a realidade que viveu. A agenda da oligarquia e os ataques sistemáticos aos direitos humanos individuais e coletivos para realizar essa agenda não podiam mais ser disfarçados.

No entanto, acreditava-se que, com a correta gestão dessa perceção, as duras arestas do ataque podiam ser suavizadas, mesmo se o Estado continuasse a fortalecer as suas capacidades repressivas. O capital financeiro transnacional dos EUA atribuiu essa função a Barack Obama.

A administração Obama colaborou com os tribunais e o Congresso para desmantelar os direitos democráticos e fortalecer o aparato repressivo do Estado, incluindo o assassinato de cidadãos dos EUA. O jornalista James Risen só escapou da prisão porque trabalhava para o New York Times. Entretanto, autores de denúncias como John Kiriakou, que expôs o programa de tortura de Bush, foram enviados para a prisão, juntamente com Chelsea Manning, que foi condenado a 35 anos de prisão por expor a evidência dos crimes de guerra das forças dos EUA no Iraque. Mesmo perante estes claros ataques à liberdade de imprensa, os jornalistas burgueses apenas conseguem resmungar o ódio irracional a Julian Assange e à WikiLeaks.

A expansão da vigilância da NSA e a espionagem e incriminação de jornalistas que fazem denúncias são ataques sistemáticos à liberdade de imprensa, de pálida expressão quando comparados à teatralidade dos discursos inflamados de Trump contra a imprensa. Mas, de acordo com James Risen, se Trump decidir “atirar um denunciante para a cadeia por tentar falar com um repórter, ou mandar o F.B.I. espiar um jornalista, tem de agradecer a um homem por lhe ter legado um tão amplo poder: Barack Obama”.

Esta é a realidade objetiva que enfrentamos. Requer um pensamento claro, livre de emoções, de moralismos elitistas pequeno-burgueses e de distrações da propaganda liberal, que minam a nossa capacidade de ver e entender que o Estado nacional da inteligência militarista é um inimigo de todos nós, porque serve os interesses da classe dominante como um todo.

Trump, Sanders, Obama, Mueller e a CNN são meras distrações ideológicas destinadas a entorpecer as nossas perceções e a impedir-nos de chegar a uma conclusão sobre a impressionante realidade da nossa dominação sistémica. O fascismo representa uma forma específica de decadência capitalista. É por isso que – apesar de o protofascismo de Trump representar uma perigosa tendência –, evitar o beco sem saída político e ideológico do antitrumpismo exige que mantenhamos o foco da nossa análise e agitação nas atuais estruturas da supremacia branca, do patriarcado colonial-capitalista, e não nas individualidades e personalidades; isto, se quisermos evitar fazer o sujo trabalho ideológico da classe dominante.

 

* Ajamu Baraka é o organizador nacional da Aliança Negra para a Paz e foi o candidato de 2016 a vice-presidente do Partido Verde, nos EUA. É editor e colunista colaborador do Black Agenda Report e colunista colaborador da revista Counterpunch.

 

Fonte: https://www.counterpunch.org/2018/08/01/trump-and-the-politics-of-neoliberal-destruction/, publicado em 2018/08/01, acedido em 2018/08/25

 

Tradução do inglês de PAT

 

 

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