Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Ron Jacobs *

Estas tarifas não são para benefício dos trabalhadores. São uma tentativa de uma fação da classe dominante dos EUA para extrair mais lucros de um sistema em crise e para internalizar o sistema neoliberal, tanto quanto possível. Os meios de subsistência dos trabalhadores dos EUA são secundários, pelo menos na sua lista de preocupações.

 

Sem Título (10).jpg

 Foto de Backbone Campaign | CC BY 2.0

 

Se alguém procurar comentários acerca das tarifas recentemente impostas por Donald Trump sobre as importações de aço e alumínio descobrirá que a maioria desses comentários parte duma visão da Wall Street. Por outras palavras, as observações referem-se à questão de saber como as tarifas afetarão os lucros. Uma íntima união de executivos declarou que as tarifas serão boas para os empregos nos EUA, nas indústrias afetadas. Dito de outra forma, os trabalhadores do aço e do alumínio poderiam ter mais trabalho no curto prazo. Contudo, outras indústrias, como as de automóveis e de produtos enlatados, devem perder empregos, porque os custos dos seus materiais aumentarão. Esse aumento significará que os proprietários dessas empresas aumentarão o custo para os consumidores. Como os salários estão praticamente estagnados nos Estados Unidos, isso significará, provavelmente, que serão vendidos menos produtos acabados feitos de aço e alumínio, o que poderia muito bem causar despedimentos nessas indústrias, nos seus fornecedores e nos seus vendedores. Por sua vez, isto poderia também resultar em despedimentos nas indústrias de aço e alumínio. Quer dizer, os únicos setores da economia que podem, certamente, ganhar dinheiro com essa solução – pelo menos a curto prazo – são um número limitado de corporações e financeiros. Mesmo assim, não podem ter a certeza.

Claro que alguns especuladores financeiros já começaram a apostar nas tarifas. Nos dias imediatamente após o anúncio destas, várias agências de notícias informaram que Carl Icahn, um investidor bilionário e ex-assessor especial do presidente na regulação da reforma, vendeu dezenas de milhões de dólares de ações associadas, nos dias anteriores ao anúncio das tarifas de Trump. Embora a venda possa não ter resultado em enormes lucros, a sua concretização antes do anúncio significa que Icahn não verá o valor das suas ações cair a pique quando o mercado reagir à aplicação das tarifas. Outros especuladores estão, muito provavelmente, a aproveitar a queda nos preços das ações das empresas afetadas pelas tarifas e a comprá-las. Quando os preços começarem a subir, o que muito provavelmente acontecerá, esses investidores colherão os benefícios.

Entretanto, os trabalhadores dos EUA, certamente, nunca verão quaisquer benefícios económicos duradouros dessas tarifas. Claro, alguns trabalhadores da indústria sentirão que têm mais segurança no emprego; alguns podem até ter aumentos e muitos conseguirão, provavelmente, fazer mais horas extraordinárias. No entanto, esses trabalhadores não estarão imunes ao aumento dos preços no consumidor; portanto, o mais provável é não conseguirem melhorar muito – isto, se melhorarem. Estas tarifas não são para benefício dos trabalhadores. São uma tentativa de uma fação da classe dominante dos EUA para extrair mais lucros de um sistema em crise e para internalizar o sistema neoliberal, tanto quanto possível. Os meios de subsistência dos trabalhadores dos EUA são secundários, pelo menos na sua lista de preocupações. Assim como o sistema capitalista é global por natureza, também o deve ser a resistência ao mesmo. Quando os governos nacionais apresentam medidas protecionistas, como as tarifas, como uma solução para os problemas que os trabalhadores enfrentam, estão a enganar o povo. As únicas soluções para os problemas que os trabalhadores enfrentam em todo o mundo são as soluções internacionalistas, na sua teoria e na sua prática.

Como uma pessoa que quer atirar o capitalismo permanentemente para o caixote do lixo, tenho a sensação de que essas tarifas poderão empurrar o futuro nessa direção. Afinal, os EUA são apenas uma potência no mundo do capitalismo global e nem sempre são os mais fortes. De facto, a imposição de tarifas poderá ser um sinal de fraqueza, não de força. Também poderão sair pela culatra, de formas bastante perigosas, não só para o público em geral, mas também para a própria Wall Street. Nos últimos dias, muitos especialistas referiram a Lei Smoot-Hawley, de 1930, que impunha tarifas sobre 20 mil bens importados e provocou uma guerra comercial que exacerbou o que ficou conhecido como a Grande Depressão. Os campeões do mítico mercado livre (entre eles, Milton Friedman) contestam(ram) a ideia de que a Smoot-Hawley tivesse tido grande efeito na depressão, optando, em vez disso, por culpar a Federal Reserve [Banco Central dos EUA – NT]. As guerras comerciais que se seguiram levaram, seguramente, à Segunda Guerra Mundial. Mas, as causas da Grande Depressão foram consideravelmente mais profundas. As tarifas contribuíram para isso, mas não foram o elemento crucial. Olhando para trás, está claro que a Depressão foi um exemplo drástico de como o capitalismo funciona. De facto, foi uma correção do mercado para superar todas as correções do mercado.

Os trumpistas acreditam que os atuais acordos de “livre comércio”, como o NAFTA, são de alguma forma injustos para a indústria e a banca dos EUA. Isto aparece na sua tentativa de isentar o Canadá e o México das tarifas se concordarem com algumas mudanças ao atual NAFTA. Embora esteja bastante claro que aqueles acordos comerciais são prejudiciais para os trabalhadores em todo o mundo, as mudanças que os trumpistas têm em mente não são feitas para favorecer os trabalhadores. Como os próprios acordos de “livre comércio”, as mudanças são principalmente projetadas para aumentar o valor das ações de várias corporações e instituições financeiras. Os trabalhadores de todo o mundo devem ter cuidado com aqueles que afirmam que as ações da classe capitalista são para o seu benefício. Isto é verdade quando se discute a OMC e o seu evangelho de “livre comércio”; é igualmente verdade quando os acordos feitos em nome do “livre comércio” são desafiados ou rasgados pelos capitalistas. Quando os trumpistas rasgaram a Parceria Transpacífica (TPP), fizeram-no porque as suas ideias sobre a maximização do lucro para os seus amigos em Wall Street não iam ao encontro das ideias dos capitalistas que apoiavam o acordo. Quando as duas fações dizem ao público que a sua orientação do comércio capitalista beneficiará o público, estão apenas a contar parte da história. Quaisquer benefícios que os trabalhadores obtenham numa economia capitalista são o resultado da luta, não dos presentes dos patrões e financeiros. Apoiar as tarifas por causa de algum alegado ganho de curto prazo é, simplesmente, entrar no jogo do capitalismo neoliberal.

 

* Ron Jacobs é o autor de Daydream Sunset: Sixties Counterculture in the Seventies [Devaneio ao pôr do sol: a Contracultura dos anos sessenta nos anos setenta], publicado por CounterPunch Books. A sua última publicação é um folheto intitulado Capitalism: Is the Problem [Capitalismo: é o problema]. Mora em Vermont. Pode ser acedido em ronj1955@gmail.com.

 

Fonte: Publicado em 2018/03/16, em https://www.counterpunch.org/2018/03/16/trump-and-his-tariffs/ e acedido em 2018/03/19.

 

Tradução do inglês de PAT.

 

Print Friendly and PDF

Autoria e outros dados (tags, etc)



Nota dos Editores

A publicação de qualquer documento neste sítio não implica a nossa total concordância com o seu conteúdo. Poderão mesmo ser publicados documentos com cujo conteúdo não concordamos, mas que julgamos conterem informação importante para a compreensão de determinados problemas.


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.