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Ramzy Baroud *

Se tão bizarros acontecimentos – demitir professores e condicionar a ajuda à assunção de uma posição política – ocorressem na China, por exemplo, Washington teria liderado uma campanha internacional condenando a intransigência e a violação dos direitos humanos por parte de Pequim.

 

 

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Bahia Amawai é uma cidadã americana que vive no Texas, especialista em idiomas, que ajuda crianças autistas e com dificuldades de fala a superar as suas deficiências.

Apesar da essencial e nobre natureza do seu trabalho, foi demitida pelo Distrito Escolar Independente de Pflugerville, que abrange a área de Austin.

Todos os anos, Amawai assina um contrato anual que lhe permite continuar com as suas tarefas ininterruptas. No entanto, neste ano algo mudou.

Surpreendentemente, o distrito escolar decidiu adicionar uma cláusula ao contrato, que exige que os professores e outros funcionários se comprometam a não boicotar Israel “durante o período de seu contrato”.

O “juramento” faz agora parte da Secção 2270.001 do Código do Governo do Texas e, com óbvia elaboração, está declarado no contrato, de modo a que aqueles que desejam trabalhar, ou manter os seus empregos com o governo texano, não encontrem qualquer lacuna para escapar às suas penalidades:

“‘Boicotar Israel’ significa recusar-se a contratar, encerrar atividades comerciais, ou, por outro lado, tomar qualquer medida que pretenda penalizar, infligir danos económicos, ou limitar as relações comerciais especificamente com Israel, ou com uma pessoa ou entidade que realiza negócios em Israel, ou em território controlado por Israel”.

O facto de o Texas considerar inaceitável até mesmo o boicote das empresas que operam nos colonatos judaicos ilegais na Cisjordânia Ocupada coloca-o em conflito com o direito internacional e, subsequentemente, com a vasta maioria da comunidade internacional.

Mas não se apresse a julgar, condenando o Texas por ser o infame e estereotipado “velho oeste”, como é retratado até mesmo nos próprios meios de comunicação dos Estados Unidos. De facto, o Texas é apenas uma pequena faceta duma massiva campanha do governo americano, que visa sufocar a liberdade de expressão, tal como está consagrada na própria constituição do seu país.

25 estados dos EUA já aprovaram um antiboicote da legislação de Israel, ou emitiram ordens executivas visando boicotar as redes de apoio ao boicote, enquanto outros estados estão a seguir-lhes o exemplo.

A um nível do governo federal, o Ato do Congresso de Antiboicote de Israel, que está a ser recebido com entusiasmo pelos legisladores dos EUA, promete multar e prender aqueles que boicotam Israel.

Embora haja forte oposição da sociedade civil a tão óbvias violações dos princípios básicos da liberdade de expressão, os militantes pró-Israel endoideceram.

O Texas – que aprovou e promulgou leis que criminalizam o apoio ao boicote a Israel, que é defendido pelo movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções da Sociedade Civil Palestina (BDS) – continua a abrir o caminho para outros estados.

Na cidade texana de Dickinson, que foi devastada pelo furacão Harvey no ano passado, as vítimas do furacão foram convidadas a assinar um compromisso de não boicotar Israel em troca de ajuda humanitária para salvar vidas.

Deve ter sido um completo choque para os residentes deslocados da cidade descobrir que os escassos suprimentos que receberiam dependiam do seu apoio ao governo de extrema direita do Primeiro Ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Mas esse é o triste estado da democracia, hoje, nos EUA, onde os interesses de um país relativamente pequeno e distante se tornaram a peça central das políticas governamentais dos EUA, no interior ou no exterior.

Os apoiantes ricos de Israel estão a trabalhar lado a lado com influentes grupos de lóbi de Israel em Washington DC, mas também no estado e, até mesmo, ao nível da cidade, para tornar o boicote de Israel punível por lei.

Muitos políticos dos EUA estão a responder ao insensato apelo  do lóbi para criminalizar a dissidência política em todo o país. Embora, na realidade, muitos deles se possam importar menos, ou, até, compreender verdadeiramente a natureza do debate sobre o BDS, estão dispostos a ir mais além (como a violar a santidade do seu próprio sistema democrático) para ganhar favores do lóbi, ou para, pelo menos, evitar a sua fúria.

A campanha anti-BDS começou com determinação nos EUA há alguns anos e, ao contrário das próprias táticas do BDS, evitou o trabalho de base; em vez disso, concentrou-se em criar rapidamente um corpo oficial de trabalho jurídico que coloca os que boicotam Israel no banco dos réus.

Embora a linguagem jurídica apressadamente elaborada tenha sido corajosamente desafiada e, às vezes, totalmente anulada por advogados e organizações da sociedade civil, a estratégia israelita conseguiu colocar os apoiantes do BDS na defensiva.

Esse limitado sucesso pode ser creditado a poderosos amigos de Israel, que responderam generosa e energicamente aos tambores de guerra de Tel Aviv.

O magnata do jogo de Las Vegas, Sheldon Adelson, assumiu o leme da liderança. Entrou em ação, estabelecendo a “Maccabee Task Force”, que levantou milhões de dólares para lutar contra o que as autoridades israelitas definem como uma ameaça existencial a Israel e a deslegitimação do país como um “Estado judeu”.

A grande estratégia que os israelitas avançaram para discussão é a noção enganosa de que o BDS apela ao boicote aos judeus, em oposição ao boicote a Israel como um Estado que viola a lei internacional e inúmeras resoluções das Nações Unidas.

Um país que pratica o racismo como um assunto normal, defende a segregação racial e constrói muros de Apartheid não merece mais do que um boicote completo. Esse é o nível mínimo de responsabilidade moral, política e legal, considerando que, neste aspeto, os EUA, como outros países, estão obrigados a honrar e respeitar o direito internacional.

Contudo, os EUA, encorajados pela falta de responsabilização, continuam a agir da mesma maneira que os países que Washington ataca implacavelmente pelo seu comportamento antidemocrático e violação dos direitos humanos.

Se tão bizarros acontecimentos – demitir professores e condicionar a ajuda à assunção de uma posição política – ocorressem na China, por exemplo, Washington teria liderado uma campanha internacional condenando a intransigência e a violação dos direitos humanos por parte de Pequim.

Muitos americanos ainda não entenderam como a submissão dos Estados Unidos à vontade política de Israel está a afetar a sua vida quotidiana. Mas com cada vez mais restrições legais, até mesmo os americanos comuns em breve se encontrarão a lutar por direitos políticos básicos que, como Bahia Amawai, sempre deram como garantidos.

De facto, Israel pode ter conseguido coagir algumas pessoas a não declarar abertamente apoio ao BDS, mas, finalmente, acabará a perder também essa batalha.

Sufocar as vozes da sociedade civil raramente funciona por longos períodos de tempo, e a campanha anti-BDS, agora a penetrar no âmago do governo dos EUA, está destinada a, em algum momento, ressurgir como um debate nacional.

É para os americanos mais importante proteger o Apartheid israelita do que preservar a natureza fundamental da sua própria democracia?

Esta é uma pergunta a que cada americano, independentemente de como sinta o conflito do supostamente distante Médio Oriente, deve responder com urgência.

* Ramzy Baroud é um jornalista, autor e editor do Palestine Chronicle. O seu último livro é The Last Earth: A Palestinian Story [A Última Terra: Uma História Palestiniana] (Pluto Press, Londres, 2018). Recebeu um Ph.D. [Doutor em filosofia] em estudos da Palestina, pela Universidade de Exeter e é um académico não residente no Centro Orfalea para Estudos Internacionais e Globais, UCSB.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2018/12/28/a-question-every-american-must-confront-apartheid-israel-or-us-democracy/, publicado em 2018/12/28, acedido em 2019/01/02

Tradução do inglês de MFO

 

 

 

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